As Eliminatórias CONMEBOL para a Copa do Mundo de 2022 ficaram marcadas como um ciclo histórico: disputado ao longo de três anos civis — 2020, 2021 e 2022 —, com profundas interferências da pandemia de COVID-19, o torneio reuniu dez seleções sul-americanas em 89 partidas, produziu 223 gols e entregou ao Brasil uma campanha de dominância sem precedentes recentes no continente. A retrospectiva a seguir detalha, com base nos números da competição, como cada seleção escreveu seu capítulo nesta longa e atípica jornada rumo ao Mundial do Catar.
Uma temporada em três anos: o contexto da competição
O sorteio dos emparelhamentos foi realizado em 17 de dezembro de 2019, em Luque, no Paraguai (Wikipédia). Poucos meses depois, a pandemia de COVID-19 forçou o adiamento das rodadas iniciais, originalmente previstas para março de 2020, para outubro do mesmo ano. A quinta e a sexta rodadas também sofreram novo adiamento, em março de 2021, por restrições de viagens impostas por diferentes países (Wikipédia). Ao todo, a competição distribuiu suas 18 rodadas da seguinte forma: quatro disputadas em 2020, dez em 2021 e as quatro finais em 2022 (Wikipédia). A vaga de repescagem intercontinental — destinada ao quinto colocado — foi decidida em jogo único, em campo neutro, no dia 13 de junho de 2022 (Wikipédia).
No total, as 89 partidas produziram 223 gols, a uma média de 2,51 por jogo — ritmo que sinaliza um torneio com volume ofensivo consistente, ainda que sem excessos. O formato de pontos corridos, com todos os dez times em uma única chave, garantiu que cada resultado tivesse impacto direto em toda a tabela, do líder ao lanterninha.
O campeão: Brasil de ponta a ponta
O Brasil encerrou a fase classificatória na primeira posição com 45 pontos em 17 jogos disputados — a única seleção do torneio a terminar a fase sem uma derrota sequer. Foram 14 vitórias, três empates e nenhuma derrota, números que isolam a campanha verde-amarela em uma categoria própria. O aproveitamento de pontos chegou a 88,2%, distância sideral em relação ao segundo colocado.
O ataque brasileiro foi o mais produtivo da competição, com 40 gols marcados — a melhor marca ofensiva do torneio. A defesa, igualmente, foi a mais sólida: apenas cinco gols sofridos em 17 partidas, uma média de 0,29 gols por jogo. O saldo resultante, de +35, ilustra com clareza o domínio exercido sobre os adversários. A maior goleada de toda a competição pertence justamente ao Brasil: 5 a 0 sobre a Bolívia, em partida disputada em 9 de outubro de 2020 (Wikipédia).
Com seis pontos de vantagem sobre a Argentina ao fim da classificação — e um jogo a menos disputado —, o Brasil não apenas liderou a tabela com folga, mas o fez sem jamais ceder uma partida aos rivais, algo que raríssimas seleções conseguem ao longo de um ciclo tão extenso e exigente.
Argentina: vice invicta, mas a distância pesou
A Argentina terminou na segunda posição com 39 pontos, também invicta: 11 vitórias e seis empates em 17 jogos. O aproveitamento de 76,5% seria suficiente para liderar qualquer outra eliminatória continental — o problema foi dividir o espaço com um Brasil que simplesmente não perdeu. O ataque argentino marcou 27 gols, com saldo positivo de +19, e a defesa cedeu apenas oito tentos, o segundo melhor desempenho defensivo da competição.
A campanha albiceleste foi sustentada por coletividade e consistência. Individualmente, Lautaro Martínez apareceu com sete gols e três assistências em 14 jogos, enquanto L. Messi também chegou a sete gols em 15 partidas. A dupla somou, portanto, 14 dos 27 gols argentinos. O meio-campo contribuiu com G. Lo Celso (cinco assistências em 11 jogos) e R. De Paul (quatro assistências em 16 partidas), construindo um conjunto que classificou com conforto, mas que não encontrou resposta para o ritmo imposto pelo Brasil.
A briga pelo G4: Uruguai e Equador garantem vagas
Com quatro vagas diretas para a Copa do Mundo distribuídas para as seleções colocadas entre 1º e 4º, e uma quinta vaga destinada à repescagem intercontinental, a luta pelo acesso foi decidida em meio a uma zona intermediária bastante competitiva.
O Uruguai terminou em terceiro com 28 pontos: oito vitórias, quatro empates e seis derrotas em 18 jogos. O saldo de gols foi exatamente zero — 22 marcados e 22 sofridos —, retrato de uma campanha equilibrada, sem excessos ofensivos nem fragilidades defensivas crônicas. L. Suárez contribuiu com oito gols em 14 jogos, dividindo a artilharia geral com Neymar.
O Equador fechou o G4 na quarta posição, com 26 pontos — apenas dois a menos que o Uruguai. Foram sete vitórias, cinco empates e seis derrotas, com 27 gols marcados e 19 sofridos, saldo de +8. A seleção equatoriana teve em M. Caicedo um dos jogadores mais participativos da competição: quatro assistências em 15 jogos, com dois gols marcados, embora também acumulando cinco cartões amarelos — o maior número entre os líderes de assistências. O Equador protagonizou ainda a segunda maior goleada do torneio: 6 a 1 sobre a Colômbia, em 17 de novembro de 2020 (Wikipédia).
Peru e Colômbia ficaram de fora do G4, mas próximos o suficiente para acirrar o debate até as rodadas finais. O Peru terminou em quinto com 24 pontos (sete vitórias, três empates, oito derrotas) e disputou a repescagem intercontinental. A Colômbia encerrou em sexto com 23 pontos — um a menos que o Peru —, acumulando oito empates em 18 partidas, sinal de uma campanha irregular, com dificuldade em converter domínios em vitórias.
A zona de rebaixamento: Chile, Paraguai, Bolívia e Venezuela
As seleções posicionadas entre o 7º e o 10º lugar compuseram o grupo das que ficaram fora de qualquer rota para o Mundial. Nos termos práticos das Eliminatórias sul-americanas, o "rebaixamento" implica ausência da Copa e, em alguns casos, da repescagem.
O Chile, em sétimo com 19 pontos, teve campanha de altos e baixos: cinco vitórias, quatro empates e nove derrotas, com saldo de -7. A. Vidal somou quatro gols em 13 jogos, mas também acumulou dois amarelos e um vermelho. E. Pulgar foi o chileno com maior número de cartões amarelos: seis em 12 partidas, o que o coloca entre os mais advertidos de toda a competição.
O Paraguai encerrou em oitavo com 16 pontos — apenas três a menos que o Chile —, com apenas 12 gols marcados em 18 jogos, o pior ataque entre todos os dez participantes. Foram três vitórias, sete empates e oito derrotas. J. Alonso e G. Gómez foram os mais advertidos pelos árbitros pela seleção guarani: seis e cinco cartões amarelos, respectivamente.
A Bolívia terminou em nono, com 15 pontos: quatro vitórias, três empates e 11 derrotas. O ataque marcou 23 gols, mas a defesa sofreu 42 — a pior da competição —, resultando em saldo de -19. Curiosamente, foi justamente da Bolívia que saiu o artilheiro individual do torneio.
A Venezuela fechou a tabela em décimo e último, com apenas dez pontos em 18 jogos: três vitórias, um empate e 14 derrotas. Com saldo de -20 e apenas 14 gols marcados, a seleção venezuelana teve em T. Rincón seu jogador mais disciplinarmente acionado, com seis cartões amarelos em 15 partidas.
Artilharia e destaques individuais
O artilheiro da competição foi M. Moreno, da Bolívia, com dez gols em 16 jogos — número que destoa da posição modesta de sua seleção na tabela (Wikipédia). Moreno chegou ao dobro de gols em relação ao quarto artilheiro, uma dominância numérica que raramente se vê em torneios sul-americanos de alto nível. Ele ainda somou uma assistência e levou dois cartões amarelos, mantendo perfil técnico acima das dificuldades coletivas bolivianas.
Na segunda posição da artilharia, Neymar e L. Suárez empataram com oito gols cada. O brasileiro, porém, se destacou por uma dupla contribuição única: oito gols e oito assistências em apenas dez jogos — a melhor marca de assistências de toda a competição. Em dez partidas, Neymar esteve diretamente envolvido em 16 gols do Brasil, número que contextualiza sua importância para a campanha verde-amarela. O volume de participações diretas em gols por jogo disputado (1,6) não tem paralelo nos dados disponíveis.
- Artilheiros: M. Moreno (Bolívia) — 10 gols | Neymar (Brasil) e L. Suárez (Uruguai) — 8 gols | Lautaro Martínez (Argentina) e L. Messi (Argentina) — 7 gols
- Assistências: Neymar (Brasil) — 8 | J. Arce (Bolívia) — 6 | G. Lo Celso (Argentina) — 5 | M. Caicedo (Equador) e R. De Paul (Argentina) — 4
- Cartões amarelos (líderes): T. Rincón (Venezuela), R. Bentancur (Uruguai), J. Alonso (Paraguai) e E. Pulgar (Chile) — todos com 6 amarelos
- Cartões vermelhos: C. Algarañaz, L. Justiniano e H. Vaca (Bolívia), além de A. Vidal (Chile) e Alexander Domínguez Carabalí (Equador) — cada um com 1 vermelho
J. Arce, da Bolívia, merece menção à parte: seis assistências em 12 jogos, somadas a três gols, tornaram-no o atleta boliviano com maior participação criativa no torneio, em contraste com a campanha sofrida de sua seleção. R. Bentancur, do Uruguai, acumulou seis amarelos em 16 jogos e ainda contribuiu com um gol, sendo um dos jogadores mais acionados pelo árbitro na competição.
Números e curiosidades da temporada
Além da narrativa esportiva, a competição deixou uma série de marcas numéricas que merecem registro:
- Brasil e Argentina foram as únicas seleções a encerrar a fase sem nenhuma derrota. Nenhuma outra seleção do torneio conseguiu manter o invicto.
- O Brasil teve aproveitamento de 88,2% — o maior da competição —, enquanto a Argentina registrou 76,5%. O terceiro colocado, Uruguai, ficou em 51,9%, evidenciando o abismo entre as duas primeiras e o restante do pelotão.
- A diferença de pontos entre o primeiro (Brasil, 45) e o último (Venezuela, 10) chegou a 35 pontos — número que coincide exatamente com o saldo de gols do Brasil.
- O melhor ataque (Brasil, 40 gols) marcou mais do que o somatório de Paraguai (12) e Venezuela (14) juntos (26 gols).
- A Bolívia sofreu 42 gols — mais do que qualquer outra seleção —, sendo também a mais vazada em termos absolutos, apesar de ter produzido o artilheiro individual do torneio.
- Entre os cinco maiores assistentes da competição, três eram argentinos (Neymar, Lo Celso e De Paul), o que confirma a organização coletiva da Albiceleste.
- A maior goleada do torneio foi Brasil 5 a 0 Bolívia, em outubro de 2020; a segunda maior, Equador 6 a 1 Colômbia, em novembro de 2020 (Wikipédia).
- A média de 2,51 gols por jogo, ao longo de 89 partidas e 223 gols, coloca o torneio em patamar ofensivo acima da maioria dos ciclos sul-americanos recentes.
As Eliminatórias CONMEBOL para 2022 ficam registradas como um ciclo de dominância brasileira sem concessões, com uma Argentina também consistente e invicta a ocupar o segundo posto, enquanto Uruguai e Equador garantiram suas vagas com eficiência. No plano individual, M. Moreno e Neymar definiram os extremos da narrativa: o boliviano, artilheiro solitário de uma campanha coletiva fracassada; o brasileiro, motor de uma seleção que só conheceu a vitória.




























































