O Boca Juniors encerrou a temporada 2019 da Primera División Argentina no topo da tabela com 48 pontos em 23 rodadas, conquistando o título com apenas um ponto de vantagem sobre o River Plate em uma das disputas mais acirradas da história recente do futebol argentino. Com a melhor defesa do campeonato e regularidade ao longo de toda a competição, o clube xeneize confirmou seu 34.º título nacional na última rodada, em partida disputada em La Bombonera contra o Gimnasia y Esgrima, com vitória por 1 a 0 (Wikipédia). A temporada, que reuniu 24 equipes em formato de liga com 23 rodadas, produziu 631 gols em 276 partidas e deixou quatro clubes rebaixados à segunda divisão.
Visão geral da temporada
A edição 2019 do campeonato argentino representou uma virada estrutural no futebol local. A partir desta temporada, foram implementadas quatro quedas e dois acessos por ano, com expectativa de reduzir a Primeira Divisão a 20 clubes até 2023 (Wikipédia). Isso tornou a zona de rebaixamento ainda mais decisiva e tensionou o segundo semestre da tabela para uma quantidade expressiva de equipes.
O torneio contou com dois estreantes relativos: o Arsenal Sarandí, que retornou à elite após um ano de ausência como campeão da Segunda Divisão, e o Central Córdoba de Santiago del Estero, que disputou pela primeira vez em sua história a Primeira Divisão, após conquistar o Torneo Reducido (Wikipédia). Ambos sobreviveram ao rebaixamento, encerrando em 11.º e 18.º lugares, respectivamente.
A média de gols foi de 2,29 por partida — um índice moderado, mas que reflete um campeonato com dois polos bem definidos: a elite dominante, encabeçada por Boca e River, e uma zona intermediária numericamente comprimida, onde um ponto separava seis clubes entre a 5.ª e a 9.ª posição.
O campeão e como conquistou o título
O Boca Juniors construiu seu título sobre um pilar fundamentalmente defensivo. Com apenas 8 gols sofridos em 23 partidas, o clube registrou a melhor defesa do torneio — uma média de 0,35 gols concedidos por jogo, número notável em qualquer liga de alto nível. Foram 14 vitórias, 6 empates e apenas 3 derrotas, totalizando um aproveitamento de 69,6%. O saldo de gols foi de +27, o maior da competição.
A solidez defensiva foi o diferencial em relação ao River Plate: enquanto o rival marcou mais (41 a 35), levou muito mais gols (18 contra 8). No cômputo final, a consistência prevaleceu sobre o espetáculo. O título só foi definido na última rodada, em La Bombonera, com uma vitória por 1 a 0 diante do Gimnasia y Esgrima de La Plata (Wikipédia). Se o River tivesse vencido sua partida na mesma rodada, o resultado do duelo direto ainda poderia ter revertido a situação — prova de que a margem foi mínima até o apito final.
A briga pelo G4 e a classificação continental
A corrida pelas quatro primeiras posições — que garantem vagas nas competições continentais — foi um dos aspectos mais movimentados da temporada. Boca Juniors (1.º, 48 pts) e River Plate (2.º, 47 pts) lideraram com folga, mas o bloco abaixo deles foi extremamente comprimido.
- Velez Sarsfield (3.º): 39 pontos, 11 vitórias, 6 empates, 6 derrotas. Saldo de +13 e 27 gols marcados.
- Racing Club (4.º): 39 pontos, 9 vitórias, 12 empates e apenas 2 derrotas — a equipe mais difícil de ser batida do torneio, mas que viu seus empates custarem o título da zona superior.
- Argentinos Juniors (5.º): 39 pontos, mas ficou fora do G4 por saldo de gols (+5, contra +5 do Racing — com desempate favorável ao Racing no critério subsequente).
Chama atenção o fato de que três clubes encerraram a temporada com exatamente 39 pontos — Velez, Racing e Argentinos Juniors —, separados apenas por critérios de desempate. Já o bloco entre 5.º e 9.º lugar foi igualmente congestionado: Defensa y Justicia, Lanús, San Lorenzo e Rosario Central encerraram com 36 pontos cada, o que evidencia o equilíbrio da parte intermediária da tabela.
A zona de rebaixamento
Com quatro vagas de descenso, a parte de baixo da tabela foi palco de tensão prolongada. Os quatro rebaixados foram Huracan (21.º), Aldosivi (22.º), Colon Santa Fe (23.º) e Godoy Cruz (24.º).
- Godoy Cruz (24.º): o pior desempenho da temporada. Apenas 18 pontos, 6 vitórias, nenhum empate em 23 partidas e 17 derrotas. Sofreu 46 gols — mais do que qualquer outro clube — com saldo de -24.
- Colon Santa Fe (23.º): também 18 pontos, mas com 5 vitórias, 3 empates e 15 derrotas. Sofreu 39 gols e marcou apenas 17, com saldo de -22. A curiosidade é que o clube tinha no elenco L. Rodríguez, um dos cinco maiores garçons do campeonato, com 5 assistências em 18 partidas — o que evidencia o desequilíbrio entre criação e concretização.
- Aldosivi (22.º): 22 pontos, 6 vitórias, 4 empates e 13 derrotas. Saldo de -15 e 35 gols sofridos.
- Huracan (21.º): também 22 pontos, 5 vitórias, 7 empates e 11 derrotas. Saldo de -10. O clube teve dois jogadores entre os mais amarelados (M. Bogado, 9 cartões amarelos em 19 jogos) e um dos mais expulsos (L. Merolla, 1 vermelho em 13 partidas).
A linha de corte ficou em 22 pontos: Huracan e Aldosivi foram rebaixados com o mesmo total, separados pelo saldo de gols. Patronato (20.º) e Gimnasia L.P. (19.º), com 23 pontos cada, escaparam com margem de apenas um ponto.
Artilharia e destaques individuais — gols
A artilharia da temporada terminou empatada entre dois atacantes, cada um com 12 gols em 20 partidas:
- R. Borré (River Plate): 12 gols, 1 assistência, 5 cartões amarelos e nenhum vermelho. Frequência de 0,60 gols por jogo.
- S. Romero (Independiente): 12 gols, também em 20 partidas. Romero não acumulou nenhuma advertência — nenhum amarelo, nenhum vermelho —, o que o torna um dos atacantes mais "limpos" em comportamento disciplinar entre os destaques.
Em terceiro lugar, J. Sand (Lanús) somou 10 gols e 2 assistências em 23 jogos — maior quantidade de partidas entre os cinco primeiros colocados. Logo abaixo, N. Bustos (Talleres Córdoba) e C. Tarragona (Patronato) registraram 9 gols cada. Bustos foi o artilheiro de um Talleres que, apesar dos 34 pontos, não chegou ao G4. Tarragona destacou-se ao marcar 9 gols por um dos clubes que mais sofreu na temporada, o Patronato, rebaixado ao 20.º lugar com 23 pontos.
Destaques individuais — assistências
No ranking de assistências, o líder foi M. Bíttolo (Newell's Old Boys), com 7 passes para gol em 23 partidas — o único jogador da lista a não marcar nenhum gol, atuando exclusivamente como criador.
- M. Suárez (River Plate): 6 assistências e 7 gols em 21 partidas. A dupla contribuição coloca Suárez como um dos jogadores mais completos ofensivamente da temporada.
- N. de la Cruz (River Plate): 5 assistências e 4 gols em apenas 17 partidas — aproveitamento expressivo considerando o menor número de jogos. Recebeu, no entanto, 4 amarelos e 1 vermelho.
- D. Moreno (Talleres Córdoba): 5 assistências, 3 gols e 4 amarelos em 20 partidas.
- L. Rodríguez (Colon Santa Fe): 5 assistências e 3 gols em 18 jogos pelo rebaixado Colon.
O River Plate dominou o ranking de assistências com dois jogadores entre os três primeiros — reflexo direto do melhor ataque da competição, com 41 gols marcados.
Disciplina: os mais advertidos
No campo disciplinar, os cartões amarelos tiveram dois líderes empatados com 10 advertências cada:
- J. Toledo (Atlético Tucumán): 10 amarelos em 19 partidas, com 5 gols e 2 assistências — perfil de atacante combativo que contribuiu na produção ofensiva.
- N. Figal (Independiente): 10 amarelos em apenas 14 partidas — a maior densidade de advertências por jogo entre todos os listados, com quase um cartão a cada 1,4 partida.
Logo abaixo, M. Bogado (Huracán) acumulou 9 amarelos em 19 jogos sem marcar gols. J. Fernández (Newell's Old Boys) e E. Brítez (Rosario Central) também chegaram a 9 amarelos, mas em 22 partidas cada.
Nos cartões vermelhos, L. Sigali (Racing Club) foi o único jogador com dois vermelhos na temporada — em apenas 14 partidas —, acumulando ainda 4 amarelos. P. Pérez (Independiente) somou 1 vermelho, 8 amarelos e 3 assistências em 14 jogos, perfil marcadamente agressivo. M. García (Gimnasia L.P.), com 6 gols e 3 assistências em 19 partidas, foi o mais produtivo entre os expulsos.
Números e curiosidades da temporada
- O campeonato produziu 631 gols em 276 partidas, com média de 2,29 gols por jogo.
- O melhor ataque foi do River Plate (41 gols), e a melhor defesa foi do Boca Juniors (apenas 8 gols sofridos) — os dois clubes do topo da tabela.
- O Godoy Cruz foi o único time do torneio a não registrar nenhum empate em 23 partidas — fenômeno raro em qualquer liga de alto nível.
- Três clubes encerraram com 39 pontos (Velez, Racing e Argentinos Juniors), e quatro clubes encerraram com 36 pontos (Defensa y Justicia, Lanús, San Lorenzo e Rosario Central), evidenciando o bloco intermediário mais comprimido da competição.
- A diferença entre o campeão (48 pts) e o 5.º colocado (39 pts) foi de apenas 9 pontos em 23 rodadas.
- A diferença entre o 20.º (Patronato, 23 pts) e o 21.º (Huracán, 22 pts) foi de apenas 1 ponto — a linha do rebaixamento mais estreita da temporada.
- O River Plate, apesar de vice-campeão, teve o maior número de gols marcados (41) e dois dos maiores garçons (Suárez e De la Cruz), além do artilheiro compartilhado (Borré).
- O Central Córdoba estreou na Primeira Divisão pela primeira vez em sua história e sobreviveu ao rebaixamento, encerrando em 18.º com 26 pontos (Wikipédia).
A temporada 2019 da Primera División argentina ficará marcada pela disputa milimétrica entre Boca Juniors e River Plate, pela nova realidade estrutural imposta ao campeonato com quatro rebaixamentos anuais e pela revelação de um torneio de alto equilíbrio na faixa intermediária — mas com uma distância crescente entre a elite estabelecida e o restante do pelotão.



































































