A Primera División Argentina de 2024 entrou para a história com o retorno do Vélez Sarsfield ao topo do futebol nacional após mais de uma década de espera. Em uma temporada com 28 clubes, 378 partidas e 769 gols disputados, o Fortín de Liniers foi campeão com autoridade, sustentando a melhor defesa do torneio e selando o título na última rodada com uma vitória simbólica — justamente sobre o vice-campeão —, enquanto o resto da tabela revelou um campeonato marcado por equilíbrio no meio da classificação, promovidos que se firmaram e uma zona de rebaixamento que só foi definida com o certame já em sua reta final.
Visão Geral da Temporada
Com 28 equipes disputando 27 rodadas cada uma no formato de pontos corridos, a edição 2024 da Primera División produziu uma média de 2,03 gols por jogo — um ritmo que reflete competitividade e dinamismo ofensivo ao longo de todos os meses de competição. Ao todo, 769 gols foram marcados nos 378 confrontos realizados, uma produção que posicionou o campeonato argentino entre os mais atrativos do continente em volume de gols. O título pertenceu ao Vélez Sarsfield, mas a disputa foi intensa: entre o quinto e o décimo colocado, seis times ficaram separados por apenas quatro pontos, evidenciando o quão estreita foi a margem para classificações continentais e para a fuga da zona de rebaixamento.
A temporada também foi marcada por uma decisão institucional relevante: a Associação de Futebol Argentino (AFA) determinou, em 17 de outubro, que nenhuma equipe seria rebaixada ao fim do campeonato (Wikipédia). A medida alterou a dinâmica da parte de baixo da tabela, retirando o peso extremo da permanência, mas os números dos times da zona inferior continuaram contando uma história de fragilidade técnica e coletiva ao longo de toda a temporada.
O Campeão: Vélez Sarsfield e a Conquista do 11º Título
Com 51 pontos em 27 jogos — 14 vitórias, 9 empates e apenas 4 derrotas —, o Vélez Sarsfield levantou seu 11º título de liga nacional e encerrou um jejum que, em termos de campeonatos nacionais regulares, se estendia por mais de uma década (Wikipédia). O Fortín terminou três pontos à frente do vice-campeão Talleres de Córdoba e com um aproveitamento de 62,9%, a marca mais alta entre os quatro primeiros colocados.
O diferencial do Vélez, porém, não foi apenas conquistar pontos: foi a forma como os construiu. Com apenas 16 gols sofridos em 27 partidas — a melhor defesa de toda a competição —, o time demonstrou solidez defensiva incomum num campeonato de alta pontuação. A média de menos de 0,6 gols sofridos por partida colocou o Vélez numa categoria à parte em relação aos concorrentes diretos. O vice-campeão Talleres, por comparação, sofreu 27 gols; o Racing Club, terceiro colocado, cedeu 30 tentos.
O título foi selado na última rodada, em 15 de dezembro, com uma vitória por 2 a 0 sobre o Huracán — que terminou em quarto lugar — enquanto o Talleres era derrotado pelo Newell's Old Boys por 3 a 1 (Wikipédia). A combinação de resultados encerrou qualquer suspense e deu ao Vélez a taça de maneira definitiva. Ao longo da temporada, um episódio já havia antecipado o potencial do clube: em 26 de agosto, pela 12ª rodada, o Fortín goleou o Barracas Central por 5 a 0 (Wikipédia), em uma demonstração de força que ficou registrada como uma das maiores vitórias do campeonato.
A Briga pelo G4: Classificação Continental em Disputa
O Racing Club e o Huracán empataram em pontos na terceira e quarta posições, com 46 pontos cada. O Racing, com 14 vitórias — mesma quantidade do campeão Vélez —, foi o time que mais oscilou na temporada: enquanto somou o maior número de triunfos ao lado do Fortín, também acumulou 9 derrotas, o dobro do campeão. O saldo de gols de +12 reforça um estilo mais aberto, que contribuiu para o Racing ter o melhor ataque do torneio, com 42 gols marcados.
O Huracán, por sua vez, apresentou o perfil oposto: apenas 28 gols marcados, o mais baixo entre os quatro primeiros, mas com apenas 5 derrotas e 10 empates, o que demonstrou consistência defensiva e capacidade de não perder pontos em momentos decisivos. O saldo de +10 e 18 gols sofridos confirmam a identidade equilibrada da equipe.
River Plate e Boca Juniors, as duas maiores instituições do futebol argentino, ficaram de fora do G4. O River terminou em quinto, com 43 pontos — oito a menos que o campeão —, enquanto o Boca foi sexto, com 42. Matematicamente, os dois gigantes estiveram próximos, mas a consistência dos quatro primeiros não deixou margem para ambos.
A Zona de Rebaixamento: Números que Denunciam Fragilidade
Embora a AFA tenha decidido que nenhuma equipe seria rebaixada na temporada 2024 (Wikipédia), os quatro times que ocuparam as últimas posições da tabela produziram campanhas que, em qualquer outro contexto, seriam suficientes para o acesso à segunda divisão. Os números são eloquentes:
- Barracas Central (28º): 23 pontos, 4 vitórias, 11 empates, 12 derrotas, 15 gols marcados e 33 sofridos. Saldo de -18, o pior da competição. Com uma média de 0,55 gols marcados por jogo, o clube teve o ataque mais anêmico de toda a liga.
- Banfield (27º): 24 pontos, 5 vitórias, 9 empates, 13 derrotas, saldo de -14. Foram 36 gols sofridos em 27 partidas, a segunda pior defesa do torneio ao lado do Central Córdoba de Santiago.
- Sarmiento Junín (26º): 26 pontos, saldo de -10, com apenas 18 gols marcados — segundo menor ataque da liga, acima apenas do Barracas Central.
- Newell's Old Boys (25º): 28 pontos e 13 derrotas, mesma quantidade do Banfield. Apesar de ter marcado 22 gols, sofreu 35, com saldo de -13. O clube, curiosamente, protagonizou a vitória que garantiu o título ao Vélez na última rodada ao bater o Talleres.
A diferença entre o 25º colocado (Newell's, 28 pontos) e o 24º (San Lorenzo, 29 pontos) foi de apenas um ponto, evidenciando como qualquer oscilação nos jogos finais poderia alterar completamente a disposição da parte mais delicada da tabela.
Artilharia e Destaques Individuais
O colombiano M. Borja, do River Plate, encerrou a temporada como artilheiro isolado da competição, com 24 gols em 35 partidas — uma média superior a 0,68 gols por jogo. Sua produção foi significativamente superior à do segundo colocado: A. Martínez, do Instituto Córdoba, marcou 19 gols, cinco a menos que o líder. Em seguida aparecem B. Romero, do Vélez Sarsfield, com 18 gols em 43 jogos, e a dupla F. Jara (Belgrano Córdoba) e Mateo Pellegrino (Platense), ambos com 15 tentos.
A presença de Borja no topo da artilharia reforça a boa fase ofensiva do River Plate, que terminou em quinto lugar com 38 gols marcados — empatado com o próprio campeão Vélez em produção ofensiva, ainda que com aproveitamento inferior. Já B. Romero teve papel central no esquema do Vélez: com 18 gols e 5 assistências em 43 jogos, foi peça fundamental tanto no ataque quanto na articulação do melhor time da temporada.
Assistências: A Criatividade que Moveu o Campeonato
No ranking de passes para gol, M. Moreno, do Lanús, e G. Lodico, do Instituto Córdoba, lideraram com 11 assistências cada um. A diferença entre os dois está no perfil de atuação: Moreno também marcou 9 gols em 39 jogos, posicionando-se como um dos jogadores mais completos em contribuição ofensiva da temporada; Lodico, por sua vez, somou apenas 1 gol em 41 partidas, com perfil mais criativo e voltado à distribuição de jogo.
C. Aquino, do Vélez Sarsfield, aparece em terceiro com 9 assistências e ainda marcou 10 gols em 44 partidas, tornando-se um dos maiores destaques individuais do campeão. I. Fernández, do River Plate, também registrou 9 assistências, contribuindo para a construção do quinto melhor ataque do torneio. R. Botta, do Talleres Córdoba, fechou o top cinco com 8 assistências — número relevante para uma equipe que terminou vice-campeã.
Disciplina: Os Cartões que Marcaram a Temporada
O jogador R. Fernández, do Newell's Old Boys, protagonizou o registro disciplinar mais chamativo da temporada: 18 cartões amarelos e 2 vermelhos em apenas 28 partidas — uma média próxima a um cartão amarelo a cada jogo e meio. A combinação o coloca simultaneamente no topo das duas listas disciplinares da competição.
No ranking de vermelhos, Y. Cabral (Gimnasia L.P.) e D. Fernández (Vélez Sarsfield) lideraram com 3 expulsões cada, seguidos por R. Fernández (Newell's), M. Céliz (Deportivo Riestra) e C. Lema (Boca Juniors), com 2 vermelhos cada. A presença de D. Fernández do Vélez nessa lista mostra que nem o campeão escapou de episódios de indisciplina, embora o rendimento coletivo tenha sobreposto qualquer perturbação individual.
Números e Curiosidades da Temporada
- O Vélez Sarsfield foi campeão com o melhor aproveitamento (62,9%), a melhor defesa (16 gols sofridos) e o artilheiro interno do título: B. Romero, com 18 gols.
- Independiente Rivadavia e Deportivo Riestra vivenciaram sua primeira temporada na primeira divisão argentina (Wikipédia). Riestra terminou em 17º, com 35 pontos; Rivadavia foi 11º, com 38 — campanhas notáveis para recém-promovidos.
- Racing Club foi o time que mais marcou na temporada, com 42 gols, mas sofreu 30, resultando num saldo de +12 — inferior ao do campeão (+22) e ao do River Plate (+17).
- A partida entre Godoy Cruz e San Lorenzo, pela 3ª rodada, foi suspensa em 25 de maio após confronto entre torcedores (Wikipédia), episódio que ficou como um dos momentos negativos da temporada fora de campo.
- A diferença entre o campeão (51 pontos) e o quarto colocado (46 pontos) foi de apenas 5 pontos, indicando que a parte de cima da tabela foi disputada de perto até as rodadas finais.
- Entre os 28 times, 14 deles terminaram com saldo de gols negativo, o que demonstra que marcar mais do que sofrer foi, literalmente, o critério que separou metade da tabela da outra.
- O Independiente terminou em sétimo lugar com apenas 5 derrotas em 27 partidas — melhor número entre os clubes fora do G4 —, mas seus 9 gols marcados a menos que o quarto colocado custaram a vaga continental.
A Primera División 2024 ficará registrada pela soberania técnica e defensiva do Vélez Sarsfield, pela consagração individual de M. Borja como o atacante mais eficiente do campeonato e pelo equilíbrio que tornou cada rodada relevante para quase todos os 28 participantes. Com o retorno do Fortín ao topo da Argentina após mais de uma década, a temporada encerrou-se como um ciclo de renovação — tanto para o clube campeão quanto para os dois estreantes que, vindos de divisões inferiores, mostraram que mereciam estar entre os melhores do país.


































































