A edição 2023 do Brasileirão Série D ficou marcada por um título histórico, recordes coletivos e individuais e campanhas que reescreveram os anais da quarta divisão nacional. O Ferroviário, do Ceará, ergueu a taça pela segunda vez — feito inédito na competição —, fazendo da temporada um capítulo singular na história do futebol brasileiro de base nacional.
Visão Geral da Temporada
A Série D 2023 reuniu dezenas de clubes de todo o país em uma disputa que combinou fase de grupos com etapas de mata-mata, trajetória clássica do torneio desde sua criação, em 2009. Quatro clubes garantiram o acesso à Série C de 2024: Ferroviário (CE), Ferroviária (SP), Athletic Club (MG) e Caxias (RS), os dois primeiros chegando à grande decisão e os dois últimos alcançando as semifinais (Wikipédia). A edição também registrou a marca histórica de 10 mil gols desde a criação do torneio — um patrimônio acumulado ao longo de 15 anos de quarta divisão no Brasil (Wikipédia).
Negativamente, a temporada registrou a pior média de público de todos os tempos do torneio (Wikipédia), dado que lança luz sobre os desafios estruturais do futebol no interior e nas periferias dos calendários estaduais, sem que se possa, com base nos dados disponíveis, apontar causas específicas além do fenômeno registrado.
O Campeão e a Final
O Ferroviário escreveu história ao conquistar seu segundo título da Série D, tornando-se o único clube a vencer a competição mais de uma vez (Wikipédia). A campanha teve como marca central a invencibilidade: o time cearense encerrou o torneio sem uma única derrota, com aproveitamento de 75%, sendo apenas a terceira equipe a conquistar a quarta divisão de forma invicta (Wikipédia). Mais do que isso, o clube estabeleceu a maior sequência invicta da história do futebol brasileiro, somando 24 partidas sem perder ao longo da competição (Wikipédia).
A final opôs dois rivais de nomenclatura curiosamente semelhante: Ferroviário (CE) e Ferroviária (SP). A primeira partida, disputada em Araraquara, terminou empatada em 0 a 0. No jogo de volta, realizado no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza, o Ferroviário fez valer o apoio de seu torcedor e venceu por 2 a 1, sagrando-se bicampeão (Wikipédia). A Ferroviária, mesmo saindo com o vice-campeonato, garantiu seu acesso à Série C, resultado que também representa conquista relevante para o clube paulista.
Destaques e Clubes de Maior Campanha
Além dos finalistas, Athletic Club e Caxias completaram o quarteto promovido ao garantirem vaga nas semifinais (Wikipédia). O Caxias, do Rio Grande do Sul, teve uma das campanhas mais notáveis entre os classificados às fases finais: o clube gaúcho não apenas chegou às semifinais, como contou com o artilheiro isolado de toda a edição em seus quadros, Eron, e com Fernando como um dos jogadores com mais cartões amarelos da competição — reflexo de uma equipe intensa e comprometida ao longo de 22 rodadas disputadas.
O Athletic Club, de São João del-Rei (MG), também protagonizou trajetória de destaque ao avançar até as semifinais, confirmando o acesso e mostrando consistência ao longo do torneio. A presença de Vinícius Silva entre os líderes em cartões vermelhos evidencia o perfil aguerrido do grupo, que participou de disputas acirradas nas fases eliminatórias.
O Ferroviário cearense — campeão — e o Ferroviário do Ceará — é o mesmo clube, para evitar ambiguidade — apresentaram ao longo do torneio um futebol coletivo de alto rendimento. O time também contou com Lincoln entre os jogadores com mais cartões amarelos da edição, com oito no total em 20 jogos, e Ciel, terceiro maior artilheiro da competição, com 12 gols em apenas 14 partidas — média expressiva que colaborou para o avanço até a final. Vale registrar que o Ferroviário citado no ranking de artilheiros e cartões é o clube cearense campeão, e a Ferroviária citada no ranking de cartões amarelos (via Vitor Barreto) é o vice-campeão paulista.
A Fase de Grupos
Os dados disponíveis contemplam a classificação de um dos grupos da fase de grupos, no qual oito clubes disputaram 14 rodadas cada. O Nacional AM liderou essa chave ao fim da fase classificatória, somando 30 pontos, com nove vitórias, três empates e apenas duas derrotas, saldo de gols de +15 e apenas sete gols sofridos — a melhor defesa do grupo, e uma das cifras mais sólidas entre as chaves da competição. A média de pontos por jogo ficou em 2,14, aproveitamento de 71,4%.
A Tuna Luso terminou em segundo, com 28 pontos — apenas dois a menos que o líder — e saldo de +11. Águia de Marabá, em terceiro com 24 pontos, apresentou solidez defensiva semelhante à da Tuna (apenas 8 gols sofridos), mas menor volume ofensivo. Princesa do Solimões fechou o G-4 do grupo com 19 pontos, equilibrando ataque e defesa com saldo de +8.
- Nacional AM: 30 pts | 9V-3E-2D | GP 22, GC 7, SG +15
- Tuna Luso: 28 pts | 8V-4E-2D | GP 21, GC 10, SG +11
- Águia de Marabá: 24 pts | 6V-6E-2D | GP 18, GC 8, SG +10
- Princesa do Solimões: 19 pts | 4V-7E-3D | GP 21, GC 13, SG +8
- São Raimundo: 18 pts | 5V-3E-6D | GP 24, GC 24, SG 0
- Humaitá: 18 pts | 5V-3E-6D | GP 16, GC 21, SG -5
- São Francisco: 9 pts | 3V-0E-11D | GP 5, GC 33, SG -28
- Trem: 8 pts | 2V-2E-10D | GP 8, GC 19, SG -11
A diferença entre os dois primeiros colocados e os demais foi expressiva. Nacional AM e Tuna Luso somaram juntos 58 pontos, enquanto os quatro colocados de 5.º a 8.º acumularam apenas 53 pontos — ou seja, a metade inferior do grupo sequer empatou em pontuação com o par de topo. O São Francisco teve a pior campanha da chave, com saldo negativo de -28 e apenas cinco gols marcados em 14 partidas, menos de um gol por jogo. A luta pelo quarto lugar evidenciou equilíbrio entre São Raimundo e Humaitá, que terminaram empatados em 18 pontos, sendo o primeiro beneficiado pelo saldo de gols neutro (0) frente ao saldo negativo (-5) do rival.
Artilharia e Destaques Individuais
A artilharia da Série D 2023 foi dominada por Eron, do Caxias, que encerrou o torneio com 14 gols em 22 jogos. O número não apenas o coroou artilheiro da edição, como estabeleceu um recorde histórico: Eron se tornou o maior goleador de uma única edição da Série D desde a criação do torneio (Wikipédia). Com apenas dois cartões amarelos e nenhum vermelho em 22 partidas, o atacante gaúcho demonstrou equilíbrio dentro e fora de campo.
Marcelo Toscano, da Portuguesa RJ, ficou na segunda posição com 13 gols em 19 jogos — apenas um gol a menos que o artilheiro, em três partidas a menos. Sua eficiência foi notável: média de 0,68 gols por jogo, contra 0,64 de Eron. O debate estatístico entre os dois enriquece a análise individual da edição.
Ciel, do Ferroviário campeão, apareceu em terceiro com 12 gols, mas em apenas 14 jogos — a melhor média por partida entre os cinco primeiros artilheiros, de 0,86 gols por jogo. Sua contribuição foi determinante para a campanha invicta do clube cearense. Pablo Thomaz, do CEOV Operário, também marcou 12 gols, em 13 partidas, com média de 0,92 — a mais alta entre os cinco nomes do ranking, uma eficiência notável para a quarta divisão.
- Eron (Caxias): 14 gols em 22 jogos — artilheiro histórico da edição (Wikipédia)
- Marcelo Toscano (Portuguesa RJ): 13 gols em 19 jogos
- Ciel (Ferroviário): 12 gols em 14 jogos
- Pablo Thomaz (CEOV Operário): 12 gols em 13 jogos
- Tony (Vitória ES): 9 gols em 14 jogos
Tony, do Vitória ES, completou o top-5 com 9 gols em 14 jogos, mas acumulou sete cartões amarelos — o maior número entre os artilheiros listados, revelando um perfil combativo que, ao mesmo tempo, contribuiu ofensivamente e gerou riscos disciplinares para o clube capixaba.
No campo das infrações, Fernando (Caxias), Abuda (Bahia de Feira) e Robson (Concórdia) dividiram a liderança em cartões amarelos com nove cada. O número de Robson em apenas 12 partidas chama atenção: média de 0,75 amarelos por jogo, a mais alta do trio. Renan, do Parnahyba, foi o mais indisciplinado em termos de expulsões, com dois cartões vermelhos em 13 partidas.
Números e Curiosidades
A Série D 2023 foi pródiga em registros que marcaram a história do torneio. O mais impactante deles veio na décima segunda rodada, quando o Brasiliense aplicou 10 a 0 no Interporto — a maior goleada da história não apenas da Série D, mas de todas as divisões do Campeonato Brasileiro (Wikipédia). O placar entrou para os livros de recordes do futebol nacional.
Outro marco foi o acúmulo de 10 mil gols desde a criação da Série D, em 2009 (Wikipédia). Em 14 edições, a competição construiu um legado de gols que reforça sua relevância como vitrine para o futebol do interior e das regiões historicamente menos representadas nas divisões de elite.
A campanha do Ferroviário reuniu ao menos três recordes em uma só temporada: bicampeonato inédito, invencibilidade e maior sequência sem derrota no futebol brasileiro (24 jogos) (Wikipédia). Individualmente, Eron somou ao título coletivo de seu clube Caxias o prêmio de maior artilheiro de uma edição na história da competição, com 14 gols (Wikipédia).
Por outro lado, a pior média de público de todos os tempos do torneio (Wikipédia) registra um alerta sobre a capacidade de atração das arenas e a necessidade de políticas que aproximem o torcedor da quarta divisão. O dado contrasta com a riqueza técnica e histórica produzida em campo ao longo de toda a temporada — uma contradição que o futebol brasileiro da base conhece há anos e que permanece sem solução simples.









































































































































